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A Folha não mentiu sobre Bolsonaro no banheiro, mas desinformou – mais uma vez

Jair Bolsonaro. Foto: Miguel Ângelo/CNI
Jair Bolsonaro. Foto: Miguel Ângelo/CNI

Dentre outras peculiaridades, Jair Bolsonaro chama atenção por ser um raro político que ainda hoje sai de aeroportos carregado nos braços de multidões que o apoiam. Por isso, chamou atenção quando a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, ganhou as redes sociais com os seguintes título e subtítulo:

Bolsonaro se esconde no banheiro para escapar de xingamentos
“Pré-candidato à Presidência preparava-se para embarcar em um voo para Brasília”

À primeira vista, era um típico caso de “dono mordendo o cachorro”, ou a inversão da lógica que justifica a notícia. Afinal, deixava no ar que a tal multidão, em vez de aplaudir o presidenciável, agora o xingava. Mas só uma minoria ínfima – é esta a realidade das notícias compartilhadas em redes sociais – que clicou no link compartilhado e foi além da manchete pôde perceber que se tratava de uma situação bem distinta.

No caso, uma garota aparentando embriaguez perseguia o candidato, que preferiu despistá-la no banheiro masculino enquanto aguardava a segurança da sala de embarque tomar alguma providência – o próprio perseguido publicou o vídeo do contratempo.

Em pouco tempo, manchetes semelhantes e igualmente dúbias passaram a despontar em outros veículos de imprensa, como Correio Braziliense, O Tempo e um punhando de blogs esquerdistas.

A colunista da Folha não mentiu. Mas errou. Porque deu ao tema uma abordagem que permitia uma conclusão bastante equivocada do episódio, fazendo com que a desinformação ganhasse o mundo. E essa, definitivamente, não é função do jornalismo.

Contudo, esta não foi a primeira vez que Bergamo se deu a erro do tipo. Em março de 2018, publicou nota cujo título afirmava: “Desembargadora diz que Marielle estava engajada com bandidos e é ‘cadáver comum’“. Quando a manchete espalhou-se nas redes sociais, ganhou corpo a versão pela qual a vereadora do PSOL teria alguma relação com traficantes.

Apenas no sétimo parágrafo, a autora esclareceu que a afirmação da manchete não vinha de uma autoridade envolvida na apuração do caso, mas de alguém que apenas havia emitido uma opinião num perfil privado.

Pouco depois, o “deslize” foi alvo de Paula Cesarino Costa, da própria Folha de S.Paulo, que já no subtítulo sentenciou: “Título e organização do texto de reportagem da Folha foram combustível para notícia falsa sobre vereadora assassinada“.

Mas o quarto parágrafo explicou melhor o erro, ou “os erros”:

“Identifico alguns problemas. O primeiro no critério noticioso da postagem, o segundo na forma como o texto foi construído e o terceiro, e mais importante, os títulos que a Folha publicou a respeito. De qualquer ponto de vista, o jornal deve refletir sobre sua parcela de responsabilidade em ser a origem da disseminação de notícia falsa.”

Merece ainda citação os trechos do manual de redação da própria Folha destacados pela ombudsman:

Títulos e subtítulos constituem o principal, quando não o único, ponto de contato de muitos leitores com a notícia. Sua formulação deve ser atraente e responsável, especialmente nas plataformas digitais, onde se perde a visão de conjunto.” E recomenda: “Evite truques para caçar cliques, como formulações sensacionalistas ou omissões destinadas a iludir o leitor“.

Bergamo não foi questionada na referida coluna, mas o editor-executivo, que descreveu o “jornalismo profissional” como “antídoto para notícia falsa“.

Em ambos os casos aqui citados, o jornalismo profissional não foi o antídoto, mas o veneno.